sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Banda sonora de Outono

Fleet Foxes em repeat... Como acontece com muitas bandas, o primeiro álbum é o que mais gosto. Que pena ter perdido o concerto do ano passado. Ainda desconhecia as músicas e não estava à espera de gostar tanto - os cd´s estão gastos! Aconteceu o mesmo com o 1º álbum de Coldplay, Arcade Fire ou Sigur Rós. 
Só falta mesmo o "check!" em "vibrar com Fleet Foxes ao vivo", com a esperança de viver o espírito hippie americano. Também quero estender-me na relva!

Um dos melhores singles em http://vimeo.com/1309452

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lisboa Open House

Acabei de saber disto. Parece-me uma excelente iniciativa, não há grandes desculpas para não ir... É gratuito! O difícil é escolher, porque concentrar a agenda em dois dias faz com que só se consiga ir a 4 sítios... é impossível ir a todos. Fica a lista actualizada de 50 espaços de arquitectura de excelência do séc. XX (e XXI!): é obrigatório conhecê-los, nem que seja só por fora!


"OPEN HOUSE PELA PRIMEIRA VEZ EM PORTUGAL!

Pela primeira vez, Lisboa acolhe o evento internacional Open House
, em Outubro de 2012. Criado em Londres em 1992 guia-se por princípios simples mas desafiantes: mostrar arquitetura de excelência ao público em geral, suscitando e estimulando o interesse no património edificado.

Organizado pela
Trienal de Arquitectura de Lisboa, Lisboa Open House realiza-se nos dias 6 e 7 de Outubro e, ao longo deste fim de semana, mais de 50 espaços poderão ser visitados de forma gratuita.

Nas fichas dos edifícios pode consultar as respetivas moradas, horários de abertura e visitas guiadas, contactos para marcações, transportes públicos e acessibilidade para visitantes com mobilidade reduzida.


Lisboa é a décima terceira cidade a integrar a rede Open House, juntando-se a um conjunto de centros urbanos com uma arquitetura marcante, tais como Londres, Dublin, Milão, Tel Aviv, Melbourne, Helsínquia, Jerusalém, Barcelona, Roma, Nova Iorque e Chicago.
"


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ponto de partida








 

O "arranque" tem de ser hoje. Com a chegada do Outono é a altura de (re)começos. A voz do P. Tolentino tem o dom de nos tocar muito radicalmente cá dentro, parece que vai ao nosso encontro:


 Sonata de outono

E o outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles que se saboreiam no verão. 
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata de outono:

O que é bonito neste mundo e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova

Neste arranque de outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.
Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tetos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso se diz que não dependem propriamente da idade os outonos interiores que atravessamos.
Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».
O outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a "transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.

José Tolentino Mendonça